
Pico na Veia*
"Do último verão, no tronco da árvore, a casca vazia
de uma cigarra: ouça o canto."
Hoje o dia está frio e cinzento. Pede cama. Eu
transeunte na lida diária. Corpo cansado. Me é
impossível compreender a excitação das pessoas
agitando bandeiras e entoando cantigas como se
verdadeiramente acreditassem nas propostas dos
canditatos do período em questão. Motivos outros os
movem. Não há razão para crer.
Tudo isso se confunde na minha mente mas não ofusca o
fato. A casca vazia de uma cigarra na minha cabeça. Não
consigo me desvencilhar da imagem, do sentimento. Estes são
estranhos, fúnebres, melancólicos e belos. De vazio,
canto e morte. É como uma constatação estarrecedora de
que existe um fim mas que existe o mistério para além
disto.
A minha vida continua no mesmo compasso, apesar do
desenrolar dos dias e dos acontecimentos. Nunca estive
tão centrada, como ora me encontro, na consciência de
que não pertenço a nenhuma forma de exceção...
O dia naturalmente cinza de qualquer forma estaria
cinza para os olhos de lama, pois seus ouvidos só ouvem o
silêncio do canto da casca vazia de uma cigarra.
* Livro de Dalton Trevisan
(esse texto foi postado em 22/09/2004, no meu último blog)
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