
Entre o cotidiano e o Extra
Enquanto olhava a lua, logo no início da noite,
percebi uma minúscula estrela a ornar a já
extraordinária beleza daquele corpo celeste, que tem o
poder de mexer com as marés e os amores, a imaginação
e a alma dos seres humanos.
Não sei ao certo o que quero escrever, sentimentos e
emoções invariavelmente não se rendem aos caprichos da
linguagem convencionada, e ficamos sempre com aquela
sensação frustrante da incompletude da expressão das
coisas.
Aquela estrela tão pequenina e bela me dava lições do
quão pequeninos e belos somos, por achar que tão
pequenina e bela é a estrela que orna a lua.
O meu olhar romântico que vê a estrela se encontrou,
na contramão dos olhares, com o “ver” piedoso da
estrela, que de longe aceitava a minha/nossa
ignorância poética de não sabê-la, mas sobretudo de
não querer sabê-la como um Sol infinitamente maior que
a lua... já que vivemos afetados a acreditar que somos do
tamanho “natural”, como diria o poeta.
Não é fácil olhar as estrelas e saber que são sóis,
não é fácil olhar as estrelas cadentes e saber que, em
verdade, não passam de lixo cósmico a arder na
atmosfera da terra...
Minha lembrança de menina ainda, me conta ter achado
todas essas revelações verdadeiras traições para com
um coração pequenino e crédulo. Todos os meus os meus
sonhos foram confidenciados a um sem número de lixos
cósmicos, pensava eu!...
Porém não cessamos de aprender. Aprendi com as minhas
desilusões que a verve humana é um recurso,
que apesar de perigoso, serve para colorir o espaço
das sombras, que em geral se configura o mundo.
E que tudo isso, ao invés de me amargurar frente a
realidade, me permite olhar romanticamente para a
pequenina estrela que se posiciona a ornar a lua,
serena e humildemente silenciosa, para não nos fazer
acordar dos nossos mais inocentes sonhos.
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