
Antes de ser os meus escritos...

"Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à
porta.
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos
também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a
tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se
deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa
como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por
baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de
mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem
outra." (Álvaro de Campos)
"Pórtico partido para o Impossível"
É que me vem sempre de assalto a imagem da
impronunciável: (sussurro para a morte)... É que me
traz sempre sensações que aniquilam o sentido da
existência, neste oceano de limitações e ignorância
das coisas, em que vivo, sem o bote da credulidade necessária
nas fórmulas mágicas e humanas de metafísica...
Não é com tristeza que escrevo. Escrevo numa tentativa
qualquer de me fazer entender quanto a Ela, matéria
insólita do bê-a-bá da minha educação terrena...
Elencar as sensações diversas e inquietantes
que recorrentemente me assaltam e funcionam como um
catalisador para o meu estranhamento de tudo.
É que um belo dia acordei e fui à porta da minha antiga casa,
que ficava no primeiro andar, olhei para a escada lá
embaixo e... a primeira imagem do dia, centralizada com
perfeição na geometria do portão,
dentro de um carro que partiu assim que
deitei os olhos sobre... foi a do rosto do meu vizinho.
Barbudo, aparentava ter seus 50 e poucos anos,
tomava umas e outras vez em quando, e danava-se a
reclamar dos filhos, que eram muitos, da sua própria
existência entre cimento e tijolo, de um pedreiro que
sequer conseguia concluir a construção da sua casa.
Passou. Me arrumei e fui trabalhar. Retornei por volta das
13:00h, como de costume, cansada como de costume(tinha
que dar conta de uma infinidade de adolescentes
rebeldes, aprisionados em salas-de-aula, na tentativa
de educá-los, ledo engano!), quando me deparei com o
silêncio oco, em espiral pela minha rua, ornada por uma
coroa de flores plásticas e azuladas, dependurada na
casa ao lado: Alguém morreu!
A primeira imagem daquele dia foi a imagem da morte,
mas eu não percebi. Ele me parecia tão bem. Mas o
seu coração não estava, e o levou embora para sempre...
Sem desculpas, afagos, possibilidade de retorno. O
silêncio agredia os ouvidos naquele dia sem sentido.
Os resmungos do jovem senhor pairavam no ar, e se
incomondavam num primeiro momento, agora eram
desejados vividamente, para que pudessem acabar com o
silêncio da morte, silêncio que fere.
O que mais me angustia é tamanha indiferença frente
aos sentimentos das pessoas. Nem mesmo o discurso da
igualdade, do comunismo da morte, minimiza a sua
crueldade. Ela arranca as pessoas da convivência com
os seus e com o mundo. Nos deixa como crianças,
tristes, por vezes desesperadas e sempre impotentes, no
escuro da realidade para além das coisas, com medo.
Decerto nunca entenderemos a morte, seus mecanismos.
Mas estamos condenados a esperá-la, tentando nos
distrair com aquilo que ela ainda concede a
permanência na terra, com as ilusões circenses que
criamos para afastá-la das nossas mentes... Ingênuas
crianças com seus trapezistas com rede de proteção, em
supostos desafios à invencibilidade da senhora
insaciável da foice cortante.
Morte. Força motriz da existência. Não compreendo o
seu poder e suas escolhas. Acho injusta a sua capa. Tenho medo do seu
corte. Um dia estarei contigo.
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