Geminiana
Expectativas são broxantes. Isso mesmo. A despeito de
o Aurélio classificar como chulo, tal substantivo, não
há outra palavra mais apropriada para o que me
assalta... Uma das minhas loucuras mais efetiva.
Imaginar que alguém imagina que isso ou aquilo de mim,
de escalar o Everest a caçapar a bola sete do sinuca,
me arremessa numa espécie de paralisia ou coma
progressivo, donde só me elevo quando percebo que não
mais existe sombra de tensão-expectativo-pandórica
sobre a minha tão humanamente limitada figura.
Origem de tal patologia? Estudos preliminares indicam
que a minha lua em libra pode ser um dos fatores
geradores de tal infortúnio, bem como a minha
geminianidade holística. No entanto ainda careço de
alguns componentes de credulidade para enveredar num
possível caminho de cura, oriundo destes princípios.
Eu gostaria de satisfazer todo mundo. E ninguém venha
com aquele papo de que antes sou eu, pois essa é uma
característica tão marcante em mim, que eu posso dizer
que ao satisfazer, estou sendo satisfeita também.
Mas sou uma, e a regência, quando exigida de mim, não
consegue harmonizar tantos interesses, tantas
vontades, por vezes caprichos, carências, egos e
desejos travestidos em expectativas. Meus, seus,
nossos. Diagnóstico? Paralisia broxática induzindo ao
coma existencial. Causa? Incompatibilidade com a vida.
– Seu Joselino Barbacena ?! – Mas meu jesuzinho
cristinho já me acharo aqui de novo! Larga do meu pé,
chulé.
Se eu pudesse abdicaria de tudo o que há em mim que
pode vir a ferir, a machucar, pois além de me fazer
ser inócuo frente aos outros, me faria ser inócuo para
mim também. Mas nada disso é possível, pois isso é a
vida, que diferente de mim, não ouve, não se afeta,
nem se rende ou se compraz com as expectativas dos seus
caminhantes.

Se você não se distrai, o amor não chega
A sua música não toca
O acaso vira espera e sufoca
A alegria vira ansiedade
E quebra o encanto doce
De te surpreender de verdade
Se você não se distrai, a estrela não cai
O elevador não chega
E as horas não passam
O dia não nasce, a lua não cresce
A paixão vira peste
O abraço, armadilha
Hoje eu vou brincar de ser criança
E nessa dança, quero encontrar você
Distraído, querido
Perdido em muitos sorrisos
Sem nenhuma razão de ser
Olhando o céu, chutando lata
E assoviando Beatles na praça
Hoje eu quero encontrar você
Se você não se distrai,
Não descobre uma nova trilha
Não dá um passeio
Não rí de você mesmo
A vida fica mais dura
O tempo passa doendo
E qualquer trovão mete medo
Se você está sempre temendo
A fúria da tempestade
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